08/2/2010

Postado por Morcelli em Destaque, Review | 5 comentários

A Lenda de Aquaman

Introdução por Felipe Morcelli

Um dos objetivos que pus em minha cabeça para o Multiverso DC neste ano de 2010 é fazer com que nossos leitores mudem sua visão de que “Aquaman é um grande bucha dos quadrinhos”. De fato, a maioria do que foi feito com ele não faz jus ao potencial que o personagem tem, mas existem pequenas pérolas em seus quase 70 anos de vida que merecem ser comentadas e, como neste caso, analisadas para o conhecimento dos leitores. Meu amigo Sérgio me mandou por email estes dias atrás o texto que vocẽs verão a seguir e me fez lembrar as boas histórias do período pós-Crise nas Infinitas Terras que a DC publicou em fins dos anos 1980. Confiram!

Texto por Sérgio Vieira

Pesquisando e buscando encontrar algumas histórias legais sobre qualquer outro herói fora dos conhecidíssimos “Batman/Superman” agora é a vez de Aquaman. O título é: “A Lenda de Aquaman” e como é de se esperar, conta a história do personagem, desde seus primeiros dias até seu auge assumindo o trono de Rei de Atlântida. Publicada no Brasil no longínquo ano de 1990, pela Editora Abril, na edição número 78 da revista Super-Homem, com direito a capa, diga-se de passagem, pela bagatela de 120 mil Cruzeiros (Cr$120.000) . Keith Giffen e Robert Loren Fleming são os escritores e a arte fica por conta de três artistas: o próprio Keith Giffen fez os esboços, Curt Swan ficou com os lápis e Eric Shanower com a arte final.

Começando a história, vemos o desenho de um bebê no mar, colocado num recife de corais bem próximo a superfície e uma narrativa dizendo claramente: “Ele não deveria sobreviver” já no primeiro quadro. E pelos quadros e narrativas seguintes percebemos que ao invés de morrer isso foi o que salvou a pequena criança. Na verdade trata-se de uma aberração, segundo o povo atlante, pois tinha pele muito branca e cabelos louros para um ser normal da civilização marinha e o local onde foi deixado chama-se Coral da Clemência. Mas a sua maior diferença não foi percebida pelos julgadores. Podia respirar ar e a radiação solar era algo perfeitamente suportável para ele. Porém o pequenino estava com frio e com fome, e precisava de sua mãe, sem contar os grandes perigos que corria estando sozinho em pleno oceano. O primeiro perigo era um tubarão, mas ao encará-lo nos olhos, o animal simplesmente parou já que a criança simplesmente pensou: “Vá embora” ao perceber que não se tratava de sua mãe, já que a vaga recordação do rosto dela era a única coisa que ele conseguia se lembrar do pouco tempo que permaneceu em Atlântida.

Dali em diante o menino cresceu e os desafios foram aumentando, por exemplo, conseguir comida. Ele estava sempre com fome, por não ter muito sucesso capturando peixes apesar de seus poderes de comandos mentais, pois achava injusto obrigá-los a morrer para alimentá-lo.

Um pescador, zelador de um velho farol na praia está em busca de sua refeição quando é surpreendido por uma presa bem difícil de tirar da água. Indo onde o suposto peixe está ele é mais surpreendido ainda ao ser puxado para dentro d’água bruscamente. Uma violenta luta começa, entre o pescador e o menino do mar, já crescido agora. Quem leva a melhor é o homem, deixando o jovem inconsciente com um soco, depois de vários gritos e palavrões. Mas o pescador fica com pena do jovem estranho, e o carrega nas costas até dentro de sua casa e ao tentar conversar com ele, percebe que ele apenas grita desesperado como uma gaivota. Porém o jovem começa a passar mal, e o velho diz a ele achar estranho que as criaturas marinhas se pareçam tanto como ele mesmo. E ao constatar que o garoto precisa de água, o homem joga-o no mar novamente e lhe deseja boa sorte, e ainda afirma não precisar de um menino-peixe dificultar a sua vida.

Na manhã seguinte, o pescador é surpreendido ao encontrar dois peixes na porta de sua casa, e para seu espanto, o garoto está sentado numa pedra a poucos metros dali. Indignado, ele pergunta ao rapaz se ele tinha feito aquilo e quer saber se é um truque para sabotar o farol. Como não recebe resposta ele já manda mais alguns palavrões, mas é simplesmente ignorado pelo garoto que lhe dá as costas e sai nadando mar adentro. No outro dia acontece o mesmo e as armadilhas do pescador já estão cheias de peixes mesmo antes dele armá-las. Lá se vão mais alguns palavrões e enquanto reclama sobre querer pegar a sua própria comida, o pescador ouve o rapaz repetir os palavrões falados por ele. Imediatamente cai na gargalhada chegando a cair no chão de tanto rir. Dali pra frente passam a conviver um com o outro, se tornando amigos e o velho pescador ensinando o jovem a ler, escrever e falar. O homem se sente muito feliz com isso, mas inevitavelmente os anos passam.

Já bem velho, o homem vê seu filho adotivo sair para nadar e sentiu ser a ultima vez que se viram. Ele entrou em casa e esperou o inevitável. Ao voltar o jovem chama mas não é atendido e ao abrir a porta de casa solta um grito desesperado pelo pai ao vê-lo morto e todos os móveis quebrados no chão. A cena seguinte mostra o jovem sentado numa rocha na praia lendo o diário do pai adotivo. O homem havia deixado o diário no lugar secreto, onde o filho o encontraria e saberia assim o que lhe causou a morte. Em resumo o homem diz estar sendo vigiado por criaturas marinhas já a algum tempo e que são como peixes porém com membros humanos. Diz saber que eles estão a procura de seu filho e sabe que sua morte não tarda a chegar. Também diz que a presença dele atrapalharia o filho, caso haja uma luta e ainda aconselha o rapaz a abandonar a ilha o mais rápido possível e deixa de presente para ele o seu nome, caso queira se aventurar no mundo da superfície.

Sem perspectivas e sozinho de novo, o jovem, agora com nome de Arthur Curry, volta ao Coral da Clemência, e permaneceu por alguns dias, lembrando do rosto de sua mãe e procurando uma forma de encontrá-la, já que era a única que poderia fazê-lo descobrir-se de verdade. Ele não mais se alimentava de peixes, pois achava injusto sacrificá-los em seu benefício, e sim, agora, alimentava-se apenas de algas, que apesar de seres vivos, não mantinham contato telepático com ele. Nadando em mar aberto, Arthur encontra um gigante transatlântico e resolve segui-lo. Chega à superfície e pisando na terra ele resolve se aventurar na nova experiência. Ele consegue roupas quebrando a vitrine de uma loja, foge de carros no meio do trânsito, consegue se alimentar pegando um cachorro-quente sem pagar e saindo na maior tranqüilidade, mesmo tendo o dono do carrinho aos berros com ele. Foi perseguido por um policial e já a noite viu um grupo de mendigos perto de uma fogueira para aquecer. Resolveu voltar ao mar e recomeçar sua busca por seu local de nascimento e sua mãe. E realmente é o que acontece. Ele encontra Atlântida, escondida numa profundidade absurda, onde o ser humano não é capaz de chegar. Mas esquecendo do que os nativos fizeram ao seu pai e a ele no passado, empolga-se com a possibilidade de ter um lar e descobrir suas origens, que se esquece da própria segurança e é rapidamente capturado por soldados atlantes e jogado no “Aquário”, nome dado a prisão. Ele passa três longos anos em regime solitário, e quando é finalmente liberado para ir ao pátio com outros prisioneiros ele prefere ficar observando o lado feminino em busca de sua mãe. E finalmente a encontra, mas antes de poder falar com ela, ele ainda precisa aprender o idioma e os dialetos locais e seu mestre é um ex-professor de cultura avançada chamado Vulko. O rapaz progride rápido, e enquanto trabalha forçadamente nas minas de sal, memoriza a linguagem e a desenvolve, mesmo sendo atingido pelos guardas que o mandam calar a boca.

Até os próprios colegas de cela tiram sarro dele, apelidando-o de “Aquaman”, que significa homem do aquário ou homem-aquático. Mas ele ignorava tudo isso apenas por um ideal: falar com sua mãe. Até chega a bater num sarrista que faz uma piada sem graça a respeito dela. Mais um ano se passa, e certa vez a mãe de Arthur não apareceu mais no lado feminino da prisão, e ele percebeu que as demais prisioneiras trajavam luto. Sua mãe havia morrido. Instantaneamente ele começa a bater nos guardas da prisão, afinal não havia mais nada que o fizesse ficar ali, mais nada que o fizesse querer viver. Deixando todos os soldados inconscientes ele diz não saber que poderia ter feito aquilo antes e imediatamente é aconselhado por Vulko a fugir, pois reforços estavam a caminho dali. Ele nada para o alto mar e começa a se desenvolver. Amplia a capacidade de se comunicar telepaticamente com os animais marinhos, passa a enfrentar os homens causadores de poluição nos mares e passa a ingressar a Liga da Justiça.

Resolve voltar a Atlântida e promete a si mesmo ajudar Vulko a libertar seu povo. Ao chegar de espreita, deixa um guarda inconsciente e rouba suas roupas para poder ingressar no “aquário” e se surpreende ao perceber que o local se tornou um museu e ouve um guia informando aos visitantes que aquela era uma antiga prisão e foi ali que teve início a Grande Revolução, onde os prisioneiros foram liderados por Vulko. Ele procura e encontra a casa do ex-professor e revendo seu velho amigo fica sabendo de todos os detalhes desde sua partida e ainda descobre que foi sua coragem em enfrentar os guardas que inspiraram os demais prisioneiros a lutarem pela liberdade. Ainda é questionado sobre o motivo de usar o antigo uniforme de presidiário, e diz ser por ironia e despeito. No mesmo instante Vulko o leva ao palácio, pois o rei deseja conhecê-lo.

Ao entrar na sala do trono ele é apresentado ao rei, que diz estar orgulhoso de finalmente conhecer o famoso Aquaman. Ao ser questionado, conta a sua história e sua descendência meio atlante e meio humana, e ainda sim diz não ser um cidadão de Atlântida. Imediatamente o rei decreta a cidadania plena a Arthur, com todos os privilégios atlantes. Mas um assunto ainda inquieta Arthur e ao continuar seus estudos com Vulko, passa em frente a um quadro no palácio onde encontra pintado o retrato de sua mãe, e descobre que ela era rainha e que o atual rei é seu primo, herdeiro do trono por ser o descendente mais próximo da linhagem da família real.

Refletindo sobre as informações recentes e triste pelos resultados negativos da investigação sobre seu nascimento, Arthur é surpreendido pelo próprio rei, indo ao seu quarto e lhe dizendo que o povo exige que passe o atual trono a ele. Após negar e afirmar não ser um verdadeiro atlante, Arthur ouve a explicação do porque ter sido abandonado no Coral da Clemência. E mesmo sendo filho da rainha e sem o consentimento dela, ele foi colocado lá por ser considerado um ser aberrante. Ainda descobre que foi dito à rainha que seu filho havia sofrido morte natural, e que ela sempre sofreu muito por conta disso. Recebe mais um tempo para pensar e decidir sobre assumir o trono. Em memória de sua mãe resolve aceitar a proposta e é recebido pelo povo e pelo conselho de braços abertos, e finalmente veste o manto e a coroa de Rei de Atlântida.

Epílogo:

O tempo passou, mas Aquaman continuou auxiliando a Liga da Justiça a manter a ordem no planeta. Tornou-se grande amigo do rapaz que em breve teria o nome de “Aqualad”, e ainda conheceu Mera, uma visitante do mundo aquático de outra dimensão que se tornou sua esposa e rainha do seu reino. Logo seu filho nasceu, o que foi motivo de muita alegria em toda Atlântida. Porém, como felicidade dura pouco, seu filho Arthur Curry III, foi morto pouco tempo antes de completar dois anos de idade e foi enterrado no Coral da Clemência. Mais uma vez Aquaman abandona tudo e todos e parte viajando pelos mares gélidos. Mas isso já é conversa para uma outra história.

Uma boa história, tratando-se de um herói com um certo grau de esquecimento pelos roteiristas atuais. Apesar de que, Aquaman não é apenas um herói, e sim um rei que quando necessário usa suas habilidades e poderes psíquicos em prol da ajuda aos seres humanos. Essa história em particular é simples. Conta as origens e os desafios até atingir o ápice de assumir o trono de Atlântida, e que apesar das mortes dos entes queridos (mãe, pai adotivo e filho) não chega a ter uma característica sombria. Tem alguns trechos bem divertidos, por exemplo, quando ele aparece no farol e o pescador lhe diz alguns palavrões, Arthur os repete como se fosse uma forma de linguagem correta e não entende nada quando o homem cai no chão de tanto rir. Ou quando ele resolve conhecer o mundo da superfície (mais precisamente Nova Iorque) e consegue roupas quebrando a vidraça de uma loja, quase sendo atropelado, ou pegando o cachorro-quente no carrinho sem pagar, como se isso fosse algo natural. E ele faz tudo numa inocência explicita. Ainda quando deixa o soldado inconsciente para roubar suas roupas e entra na prisão. Recebe um “Bem vindo ao Aquário”, e percebe que o local virou um museu.

È uma leitura legal, simples e que vai trazer uma noção de quem é e porque é o herói com o nome de Aquaman.


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Suporte o Multiverso DC.com:
  1. fabio disse:

    no fim das contas, o aquaman que parece no ultimo numero de crise final é o original ou não? ele voltou da morte? realmente, um grande herói que poucos dão valor.

  2. A versão do Aquaman no desenho Batman The Brave and The Bold ficou bem legal, ele ficou mais alienado com o mundo da superfície, um quê meio Asgardiano de ser. Em nenhum momento se pareceu o bucha dos quadrinhos.

  3. Saulo disse:

    O único poder do cara é falar com peixes, então aparece um vilão com piranhas que o Aquaman não consegue se comunicar e ele acaba perdendo a mão. É o mesmo que o Flash estar no meio de uma corrida, tropeçar e ser atropelado por um onibus!!! Não faz sentido… trocadilhos a parte, Aquaman é um personagem feito pra afundar…

  4. Renegado disse:

    Não foi assim, Saulo. O cara estava roubando os poderes do Aquaman quando este conseguiu se libertar e lutar com ele. Eles estavam dentro de uma casa numa selva e a luta foi parar no meio da mata onde o vilão tentou jogar o Aquaman num rio e mandou as piranhas de lá devorarem o Aquaman, pois tinha absorvido o poder de controlar a fauna aquática do Aquaman, só que só conseguiu enfiar a mão do Aquaman no rio e foi só o que as piranhas devoraram.

    Depois Peter David botou as mãos no Aquaman e esclareceu mais a origem dele. Isso dele ser loiro ser um tabu tão grande assim foi porque há muitos séculos atrás um príncipe da Atlântida tinha cabelo loiro e os mesmos poderes do Aquaman e aprontou barbaridades, cometeu chacinas, montou um exército e tentou conquistar o reino pra si, etc. E o cabelo loiro é muito raro na Atlântida, então por causa daquele príncipe ficou um estigma em cima dos loiros, ainda mais que o Aquaman era filho da rainha e príncipe também, ficaram com medo que fizesse a mesma coisa e que o povo se rebelasse só por ele ser loiro.

  5. Muito boa a matéria, Sérgio!
    O Aquaman é um personagem muito bom, mas ele tem que ser tratado no seu ambiente, não adianta jogar o cara na superfície que ele vai ser de pouco valor lá. Suas histórias têm que ser no fundo do mar mesmo.
    Felipe, se você quer desbancar essa visão deturpada do Aquaman, é só lembrar das fases escritas por Peter David, Rick Veitch e Kurt Busiek.

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