Postado por Morcelli em Destaque, Dossiê | 7 comentários
ZUR-EN-ARRH – PARTE 06: “Diga a ele que eu estou ansioso para enfrentá-lo!”
Por Luis Alberto
[ZUR-EN-ARRH - Parte 1] / [ZUR-EN-ARRH - Parte 2] / [ZUR-EN-ARRH - Parte 3] / [ZUR-EN-ARRH - Parte 4] / [ZUR-EN-ARRH - Parte 5]
Aos poucos, Morrison foi construindo uma história, nos levando em sua viagem (ou na de Bruce). Enfatizar o trauma na morte dos seus pais, e o fato dele jamais ter superado isso direito, mostrando sua opção por “enlouquecer” e canalizar essa loucura obsessiva na luta contra o crime ao invés de seguir uma vida “normal”.
Essa obsessão então, o levou a ser cobaia em um teste, a fim de entender melhor as mentes criminosas. Mas o que conseguiu, na verdade, foi adotar uma postura mais covarde, pois o “tratamento” feito canalizava toda a sua fúria e revolta e a expulsava aos poucos de forma desenfreada. Por fim, sentindo que algo estava errado, Bruce refez sua jornada pelo mundo, para se reencontrar (visto em 52). Em seu término, estava livre não só de seus demônios externos, como também sabia controlar aqueles que já faziam parte dele.
A “Luva Negra” então, vendo que Batman havia se fortalecido, passa a agir de forma progressiva, para realizar seu principal intento: fazer o homem duvidar de si mesmo para torná-lo fraco e destruí-lo em corpo e mente. Por que? Morrison deixa implícito que esse a missão real de Batman é “combater o mal”. Em Batman 674, ele reflete a chance de haver um inimigo maior que todos os outros, ao qual ele poderia não estar preparado. Na edição final de Batman R.I.P. (Batman 681), Hurt diz ser “o buraco nas coisas, a peça que nunca se encaixa, o inimigo, desde o princípio”. Muitos acreditam que essa figura afinal, seria o diabo, que queria ver o Batman (visto então como o símbolo máximo da vontade humana de superação, para combater o mal) quebrado, ajoelhado a seus pés. Essa teoria tem certo fundamento, já que Hurt, quando Batman o acusa de ser Mangroove Pierce, diz “Não, eu apenas vesti sua pele”. O mal encarnado então apossou-se desse corpo para fazer o Batman pirar. Mas ele nunca desiste. NUNCA!
Na mesma edição (Batman 681), vemos que mesmo drogado, induzido a um surto psicótico, e preso à uma camisa de força num caixão, ele tem tudo sobre controle, e sabe exatamente o que fazer. (Repare o já famoso “HH” do Batman de Morrison – leia-se HH como: “Tudo saiu conforme o planejado”). Vemos ainda as explicações da real razão dele ter passado pelo ritual de isolamento do Thögal (durante 52): tentar combater Zur-En-Arrh, cravado “como uma cicatriz” em sua mente, e caso não o conseguisse eliminar, criar uma personalidade reserva caso essa cicatriz “o engolisse por inteiro”. Ele cita também que em Nanda Parbat, devorou os últimos vestígios de medo e dúvida de sua mente.
Agora, se tudo isso é verdade, por que Bruce caiu em todas as armadilhas do Luva Negra? Simples. Porque ele quis. Ele é um detetive. O Maior detetive do mundo. Precisava saber até onde essa tal organização estava disposta a ir para disseminar o que ele tanto combate, o mal. Além disso, sabia que para se livrar de Zur-En-Arrh, esse vestígio canceroso em sua mente, ele teria que deixar o inimigo pensar estar no controle e aí, virar a mesa. Tiano (ou o Batman de Zur-En-Arrh, tanto faz) realmente foi um backup reserva da personalidade de Bruce, com apenas essencial para sobreviver a mais essa prova. Tanto é que após o surto total, ele é capturado pelo Luva Negra, tem sua roupa original colocada de volta (após ser barbeado – aliás, que vilão tem a preocupação de barbear o mocinho que vai ser enterrado vivo?!) e é amarrado em uma camisa de força (caracterizando o lunático que todos pensavam ser), mas está aparentemente são.
Percebemos que, ao final das tentativas do Luva Negra de destruir o Batman, o ajudaram a fortalecê-lo. No fim, ele estava ciente de tudo o que poderia acontecer. Novamente, ele se deixou enlouquecer a fim de enfrentar mais essa batalha, mas como já tinha anos de prática em manter a loucura sobre controle, isso não afetou verdadeiramente sua mente. “Tiano” foi mais como um reflexo às drogas ingeridas do que propriamente um “surto psicótico” (é, mas ninguém sabia disso até então).
Foi irresponsável expor sua identidade para um grupo de pessoas, incluindo o Coringa, e além disso, arriscar as vidas de aliados importantes como Alfred e Dick? Talvez. Se você não for Bruce Wayne! Ele já havia traçado todos os parâmetros possíveis e triangulado as principais possibilidades, escolhendo a menos dispendiosa. A prova máxima de que tinha tudo sobre controle é que ele, mesmo com a memória afetada, guardou o Bat-Rádio, aparentemente inútil para uma pessoa sã, como sua arma mais preciosa, quando na verdade era um dispositivo para neutralizar a segurança do Arkham (onde Dick estava prestes a ser lobotomizado). Ele já tinha previsto tudo, pois “O homem superior prevê o mal que está por vir e se prepara contra ele”! Até o envolvimento com Jezebel Jet é mostrado como parte do plano do Batman, ficando claro que ele nunca a amou de verdade, pois desde o início percebeu que realmente poderia se apaixonar por ela, e com certeza, estaria sendo usada pelo inimigo.
Por fim, todo o trauma e medo gerado por conta da morte dos Wayne, além das fraquezas geradas pela frase gatilho Zur-En-Arrh, foi superado neste arco. É claro que Bruce vai permanecer sempre desconfiado, mas sem extremos paranóicos, até porque ele é um detetive, e desconfiar, duvidar, cogitar possibilidades, faz parte do currículo. A Prova de sua superação é que, nos eventos futuros em Crise Final, vemos Batman empunhando uma pistola. Mas calma, isso é apenas outra figura alegórica. A arma era a representação física do transtorno/trauma de Bruce, e por isso ele jamais empunhou uma (apenas nos momentos de maior fraqueza psicológica, pois também é humano – além disso, Morrison “defecou e caminhou” para muita coisa escrita por alguns escritores por aí…). Com o transtorno superado, ele já “consegue” apontar um revólver para alguém, apesar de que, isso não fará parte do personagem por conta de seu censo de justiça, do juramento solene que fez e a noção de que “armas são ferramentas de covardes para impor medo”.
Bem, é o fim. Como sabemos em Final Crisis 6, Batman encara Darkseid (uma outra representação para o mal encarnado), e atira nele com a já citada arma, mas como preço, tem sua existência ceifada do plano físico. Mas, repare bem na página abaixo:
Tio Morrison não dá ponto sem nó. Você acha que foi afirmado tantas vezes que “O Batman pensa em tudo” à toa? É só uma questão de tempo até o velho e bom Bruce Wayne voltar, e quando voltar, mais forte e preparado do que nunca. E fico imaginando o que Morrison deve estar pensando sobre as críticas à sua obra e ao seu estilo de escrever… Acho que ele só diria uma coisa: HH!
Até a próxima!
Tags:Batman, Batman 70 Anos, Batman: Descanse em Paz, Grant Morrison, Zur-En-Arrh
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Luiz, parabéns pelo trabalho detalhado em dissecar a obra do Mago Morrison com o Homem Morcego.
O cara é sempre coerente, espetacular, oculto, fantástico no que escreve, e muitas vezes, deixamos sim passar batido vários pontos relevantes e que na verdade são importantes referências, tipo “HH”.
Realmente, dá pra perceber que o Mago já cavou a volta do Morcego aí.
Nada é solto, sem ter um porquê.
É bom estar por aqui no Multiverso DC.
Cara,o “Te peguei” ao ser atingido pelo raio Omega já joga na cara que ele não morreu!Ele sabe das provaveis mudanças que seus sucessores(Dick e Damian) vão fazer,e deixou tudo preparado pra isso.O fato dele ter atirado no Darkseid fecha um ciclo,que começou anos atrás no Beco do Crime.Agora ele está livre.Enfrentou as personificações de todo mal existênte.Mas sobre a volta dele,tem uma questão interessante:
1)Ele realmente deve voltar como Batman,após ser achado?
20Em Batman #666,se vê 3 uniformes na sala do “novo” Batman,Damian Wayne,sendo que um deles pode o uniforme do Dick Grayson como Batman ,o do Damian como Robin e um 3° unforme do Batman(dá pra identificar que é do Bruce porque o mesmo usa no começo da historia).Então a possibilidade de termos 2 Batman tambem é possivel.
É, Morrison, só pecou ao dizer que o cabelo de Jason Todd era ruivo originalmente, não é mesmo? Claro, ele buscou inspiração no período Pré-Crise, mas vamos ponderar alguns fatos… Na cronologia Pós-Crise, Jason Todd apareceu originalmente com cabelos escuros, como foi visto em Asa Noturna: Ano Um, e até mesmo em histórias recentes do Batman. Então não há razão pra afirmar que os cabelos de Jason são ruivos naturalmente. Segundo é que na cronologia Pré-Crise, os cabelos de Jason eram loiros e não ruivos. Então ainda acham que os roteiros de Morrison fazem mesmo sentido?
@Marcelo: Muito obrigado Marcelo, e a todos que acompanharam esse artigo. Realmente é mto bom ter esse retorno.
@Diogo: Cara, depois do lance do Ceifador, eu não duvido de mais do que você falar :)
@Pedro: Cuidado pro Morcelli não ver esse seu comentário (hehehe). Pô cara, respeito sua opinião, mas sem querer parecer escroto, com relação a esse lance da cronologia, é que o Morrison é meio louco, então ele tá cagando pros Retcons que ocorreram nas crises. Por isso ele retornou com muitos conceitos da Era de Ouro (através de alucinações do Bruce). Na história que eu tenho, realmente o Jason está mais loiro do que ruivo, mas de acordo com todas as fontes (tipo Wikipedia, DCDatabase e tal), ele era ruivo… Será que era tipo o Fantasma aqui no Brasil, que em vez de roxo saiu vermelho???
Cara tu explicou muito bem tudo, e os arcos atuais estão muito bons
eu não li o material importado, então gostaria de saber o que aconteceu com dakseid.
morreu? feriu-se? parabens pelos artigos, fiquei impressionado com o seu nivel de conhecimento sobre a mitologia do batman e sua capacidade de síntese. demais
Bom, eu tambem não sei, não presenciei esse fato e tambem to curioso.
LUis, Luis, Luuuuis. Cara, ler o seu artigo me fez pensar com um vigor novo no cruzado
de capa de Gotham. Eu acompanho as historias do morcego des de a conçagrada “A
queda do morcego” e sempre pensei no Batman como algo superior a um cara usando
uma fantasia e batendo em bandidos por ai. Com o seu artigo, me aprofundei mais na
analize da capacidade mental humana e firmou mais ainda meu batfanatismo.
Agora pergunto, será que algum dia vermos esse artigo em alguma livraria?